O trabalho desenvolvido por nós, as Focas do Q?, teve um ótimo resultado. As matérias foram publicadas ontem (28/10) e a repercussão foi a melhor possível.
Abaixo você confere o texto feito pelo Allan e por mim.
Os caminhos de Valdomiro“Esse nome é por causa do jogador do Inter?”
“Não. Meus pais são gremistas.”
“E tu?”
“Também. Mas não assisto os jogos. Gosto só de ver os resultados.”
“Não gosta de futebol?”
“Não muito.”
“Nem quando era criança?”
“Não, sempre fui ruim.”
(risos)
Valdomiro Soares, brasileiro de 19 anos, não nasceu na rua, mas é como se fosse filho dela. Em especial da Borges de Medeiros, no soturno centro de Santa Cruz do Sul, onde trabalha em frente a uma pizzaria. Para afugentar o frio da noite, brinca com dois vira-latas, balança os braços como quem se exercita e bafora o ar quente da boca nas mãos em forma de concha. Movimenta-se pra lá pra cá com seu colete cor de laranja e decalques que cintilam quando iluminados. Valdomiro orienta os freqüentadores que chegam, recepciona, abre a porta do estabelecimento e simpático diz: “Boa noite; dá uma cuidada no carro?”
Milo, como é chamado pelo pessoal que trabalha na pizzaria, fixou-se no local, na quadra entre as ruas Marechal Floriano e Marechal Deodoro, há dois anos e dois meses. Antes disso, trabalhou durante quatro anos em outras ruas do centro.
“Como tu te tornou flanelinha?”
“O meu irmão, o Marcos, trabalhava nas ruas. Daí um dia ele me convidou pra ir junto, pra ver como era. E eu continuei.”
“E quantos anos tu tinha?”
“13.”
Valdomiro está acostumado com o ambiente onde trabalha. Vive em dois extremos. Enquanto as pessoas vão à pizzaria e aos bares próximos para se entreter, aproveitar a noite e comer ou beber algo diferente, no bairro Margarida-Aurora, onde ele mora, a luta para por comida na mesa é constante. Feito guerreiros tribais, os moradores, a maioria de classe-baixa, “caçam um leão por dia”, e nem sempre o alcançam com sucesso. “Eu sempre dou parte do que ganho pra minha mãe. Pra comprar comida no mercado.”
A mãe do Valdomiro é a Rosane Maria Soares, 40. Ele mora com ela, com o pai, o Antônio Valdemar Soares, 41, e a irmã mais nova, Viviane Luana Soares, de 14 anos. Os outros dois irmãos, o Tiago Costa Bettencourt, de 23 anos, e o Marcos Valdemar Soares, de 20, saíram de casa e hoje constituem as suas próprias famílias.
“Como tu volta pra casa?”
“Eu venho de bicicleta. Só não venho com ela no fim de semana.”
“Ué, por quê?”
“Porque daí eu dou uma volta depois do trabalho né?!”
(risos)
“É?! E aonde tu vai?”
“Por aí, pelas ruas, nas festas. Aonde Jesus me levar.”
“Quero terminar o ensino médio pra poder trabalhar de carteira assinada.” Valdomiro está nas séries finais do ensino fundamental, cursa o 2° módulo do Cemeja (Núcleo Municipal de Educação de Jovens e Adultos). “Não. Não gosto muito de ler e de escrever. Gosto é de contas.”
“A noite é tudo. Ninguém repara em ti.”
É assim que Valdomiro define a noite. Onde ele é mais que conhecido. Não só os freqüentadores da pizzaria, mas as pessoas que passam na calçada, ou mesmo de carro, sempre lhe cumprimentam, acenam, “Oi tudo bem?”, buzinam.
Valdomiro faz outros trabalhos na pizzaria. Varre a calçada quando chega, normalmente às 18 horas, compra o que falta. “Venho segundas e sextas de manhã também. Arrumo a lenha pra de noite, pago contas pro seu Luís (o dono).” Ele acrescenta que não pretende largar o serviço: “Seu eu parar, quem vai trabalhar no meu lugar? O seu Luís gosta que eu fique aqui. Ele confia em mim”. No final da noite, antes de fechar, Valdomiro ajuda os funcionários nas últimas tarefas, e quando não jantou ainda, aproveita. “Quase sempre como as pizzas que sobram, e levo algumas para casa. Eles me dão.”
Quanto ao que ganha dos freqüentadores, Valdomiro diz: “Não pressiono ninguém. A maioria do pessoal já me conhece, gostam que eu cuide dos carros. Eu não peço nada, eles que dão ou não. Paga quem quer.” Ele chega a tirar, nos dias de mais movimento (sexta e sábado), 60 reais. O valor que ganha de cada um varia de alguns centavos a 5 cinco reais.
“E o que tu mais gosta no teu trabalho?”
“Das pessoas. Das pessoas simpáticas. De conhecer. Fazer amizade.”
...
“E a noite, Milo?”
“A noite é tudo, ninguém repara em ti.”
Mutuca
Para o garçom Chrystian Morgan Freitas, há 6 anos na pizzaria,“O Valdomiro é um guri muito bom. Tem uma história muito bonita. Agente faz questão que ele trabalha aqui”.
Cássio Fischborn, garçom há 8 anos, “Esse guri fala o que ele pensa.”(risos)
“Esse guri é uma exceção da rua. Tinha tudo pra seguir outro caminho, 99% de chances, mas não seguiu” diz Milton de Morais, que trabalha há 32 anos como vigia noturno, oito deles em um prédio próximo da pizzaria.
“Ô, quando vocês forem botar o nome dele lá, botem Milo Mutuca” brinca Dagoberto Nicknig, gerente da pizzaria, onde trabalha há mais de 10 anos.
Nós perguntamos:
“Milo, por que Mutuca?”
“Porque eu to sempre lá na volta deles.”
(risos)